Relato da noite 27.09.2006
Conheci Ricardo (homem alto, louro, de olhos azuis, rosto bem desenhado, embora mostrasse nitidamente a dor e o sofrimento)que me adicionou em uma conversa virtual, e pediu:- Por favor me ajude, estou muito sozinho, preciso de você. Sou médico bem conceituado, moro com minha mãe em uma fazenda que fica um pouco distante da cidade onde trabalho.
Há pouco tempo, perdi minha esposa amada. Morreu, desde então os amigos afastaram-se de mim.
(Durante o tempo em que ele falava , enviava-me fotos do pomar, jardim, campos cheios de árvores floridas, onde minha mente absorvia a imagem nítida como se presente estivesse naquele lugar...)
Tive conhecimento que estávamos distante (mesmo sem ele me dizer isto..)
Sabia que seria impossível deslocar-me e estar com ele para poder ajudá-lo.
Disse então que não poderia me ausentar, e que infelizmente nossa conversa não prosseguiria.
Ele insistiu: Por favor, me ajude...preciso de você...
Enquanto estas palavras enchiam meu coração de dor e aflição , apareceu sentado a meu lado, uma criança (um menino moreno,magro, olhos grandes e expressivos, aparentando não mais que 9 anos de idade.)Ele olhou-me e em um tom ao mesmo tempo sério e suave, perguntou:
- Tem certeza que deves ir?Não hesitei tampouco achei estranho a presença e o questionamento. Vi-me dentro de um avião, onde seguiu em pouco tempo até uma cidade. Desembarquei e a viagem prosseguiu de ônibus até á fazenda...Quando o ônibus parou em frente á fazenda...Ele estava á minha espera.Desci. Nos olhamos mas não trocamos sequer uma palavra , pois estava totalmente aturdida com a paisagem que se apresentava a minha volta. Um cinza imenso, como floresta após grande incêndio. O chão era seco, escuro e com rachaduras...Haviam casas, destruidas, derrubadas ao chão..árvores sujas com lodo e folhas queimadas. Em toda parte via-se o caos, vermes, como se fosse impossível viver ali e respirar...não o ar...mas os gases pútridos que exalavam no local.
Ricardo me deu a mão e logo enxerguei um enorme portão, onde ultrapassamos calmamente e sem obstáculos.
Qual não foi a surpresa ao deparar-me com imagem de inigualável beleza. Um lindo jardim florido com árvores e flores de perfume suave, a grama era verde e bem cuidada. Havia um pomar, alguns animais e uma casa estilo colonial com suas telhas vermelhas que brilhavam com os raios de sol...O céu era de um azul imenso.
Neste instante, deitei-me no chão e disse:- Nunca vi na vida lugar tão lindo!Entramos na casa, e lembro-me apenas de nos amarmos, não no sentido vulgar mas como se estivéssemos unidos como um só. Sim, foi maravilhoso!
Então...tudo mudou de repente.Conheci uma senhora (mãe de Ricardo) que chamou-me a sentar á mesa, onde trocava peças em um antigo jogo de tabuleiro retangular. Eram pinos pretos e vermelhos que eram trocados de forma alternada. Perguntei o nome do jogo e ela disse- me, embora não recorde para poder relatar neste momento..(quem sabe um dia...)
A senhora disse-me:- Você não deve ficar aqui, quero que vá embora o quanto antes...... e continuou jogando...fiquei chateada e fui procurar Ricardo que trabalhava no hospital da cidade , mas não o encontrei , havia desaparecido...
Entrei em uma sala do hospital e havia uma exposição em todas as paredes com armários cheios de roupinhas de bebê...Achei lindo..não sei por qual motivo peguei algumas roupas....as mais lindas...e retornei á fazenda..Entrei em nosso quarto e encontrei a senhora a me olhar.
Não pude acreditar no que via ...(um quarto cinza, chão rachado, mofo, vermes, sujeira e no chão um colchão velho de casal que também estava muito rasgado e cheirava mal.
Joguei-me nele e chorei gritando...-Porque Ricardo fez isto comigo...eu o ajudei...ele apenas adquiriu bens...Onde estão nosso móveis , onde está nosso antigo quarto e onde está o berço do nosso bebê?Ele nem se importa...chorei..não sei por quanto tempo... perdi a noção totalmente de espaço e tempo naquele lugar ....Quando saí do quarto eu o vi...
Ricardo ali estava, bem vestido, cabelos bem penteados e semblante calmo. mesmo assim não dirigiu-me a palavra nem olhou-me. fui totalmente ignorada como se não existisse.
Começaram a entrar na casa e na sala onde estávamos, um grupo de mais ou menos 15 rapazes de idades que variavam entre 18 e 25 anos. Ricardo saiu com eles sem dar-me atenção. eu os segui até o portão da fazenda..
Do lado de dentro eu podia ver o que se passava lá fora.
Revi a imagem de um mundo destruído!
Os rapazes pegaram Ricardo e rasparam parte de seu cabelo . Vi derramarem de uma lata...um líquido em sua cabeça que o fez cair ao chão aos gritos.
O grupo disse:- Da mesma forma que voce matou a sua esposa e nós te curamos, agora terá que voltar á fazenda e matar a sua mãe e a "outra".
(Referiam-se a mim)Continuaram..
Se fizer o que mandamos, curaremos a tua dor, da mesma forma que fizemos antes...
Ricardo gritando, mudou o semblante, parecia enlouquecido e em delírio ...e assim transpassou o portão..
Perdi a consciencia por momentos.
Quando voltei, estava amarrada a uma estaca de madeira juntamente á senhora da casa e mais algumas pessoas que não consigo identificar.
Ricardo jogou um líquido á nossa volta...e ateou fogo que espalhou-se lentamente...quando algo inesperado ocorreu...
Aquela criança morena de grandes olhos, apareceu e tirou-me do fogo, tirou-me de lá.
Sentamos em um muro, divisa entre o "céu" e o "inferno"..."bem e mal"
A criança me disse:
- Te salvei. voce sacrificaria a sua vida e de seu bebê a favor deste irmão depois de tudo que ele te fez passar?
eu respondi:
- Sim, não posso ir embora, é minha responsabilidade, voltarei e morrerei com os outros. Não é correto que eu pense somente em mim...
Novamente..fiquei inconsciente ...
pouco tempo depois voltei e estava naquele lugar lindo , não haviam mortos, nem fogo, nem o caos..
Entrei na casa onde vi um rapaz que apareceu com um bebê no colo ( uma menininha linda de quase 1 ano) e a colocou no meu colo, depois disto desapareceu.Mas antes disse: Estava cuidando da sua filha...Ficamos naquele lugar...apenas eu e ela..saímos da casa e fomos para o jardim..Sentamos no chão a sorrir felizes. Ela era linda. Vestia uma roupinha rosa e sapatinho de boneca.
Eu disse:-Seu nome é Aiesca.Ela me sorria e dizia.._ Eu? meu nome....? mamãe....
EU prosseguia...é anjinho...seu nome...ela:- Meu nome...?
Ela brincava comigo, levantava o pezinho e eu só dizia..
- Nossa anjinho...que sapato lindo...!...Assim ficamos...